DESABITUAÇÃO COMPARTILHADA

Contato Improvisação, jogo de dança e vertigem.

Segundo livro do autor dedicado à improvisação em dança, apresenta ideias e práticas sobre o jogo-dança de Contato Improvisação motivadas pelo interesse na atividade perceptiva dos dançarinos, refletindo uma extensa atividade artística, educacional e acadêmica inspirada por Estudos da Cognição. Após uma bela campanha de financiamento coletivo pelo Catarse, o livro foi publicado de maneira independente em 2014.. 

 PREFÁCIO DO AUTOR

 

 

         Este livro é uma invenção. No sentido das palavras. No sentido do que Humberto Maturana aponta em sua “biologia do conhecer” de que a explicação da experiência não é a experiência, é outra coisa que se utiliza de elementos da experiência e a ela faz referência.

 

          Artistas são dados a invenções, e eu sou do campo. Mas cientistas também, e os loucos, e as crianças e... quem não seria? O que acontece – lembrando mais uma vez Maturana - é que existem diferentes liberdades nas paixões de explicar de cada um. E também diferentes liberdades e restrições oferecidas pela matéria de que a explicação é feita.

 

          O dançarino, que é corpo, é a experiência e também é a explicação da experiência na matéria corpo. O corpo já é uma explicação! Mas o dançarino, que é ser linguajante, e fala a respeito do que faz, e dá aulas, e escreve programa de espetáculo, projeto para trabalhar, pesquisa acadêmica, livro, já é algum tipo de artista na explicação da explicação da experiência. E faz tudo isso com o corpo. Como poderia fazer de outra forma?

 

          Sendo assim, este livro é também coreográfico. Porque eu passo muito tempo na experiência da dança e essa atividade contamina todas as explicações que me ocorrem ou que eu deliberadamente invente, em corpo que se vê, em emoções, em devaneios, em visões de mundo, em palavras, em desenhos, na minha flauta, decisões cotidianas grandes ou pequenas... Eu preciso admitir que eu não posso deixar de dançar quando escrevo, mesmo que eu não estivesse falando de dança, e talvez ainda mais neste caso.

 

          Assim, este livro traz e denuncia determinadas opções em operar sobre as liberdades e restrições na explicação da experiência que oferece, isto é, alguma medida de risco e rigor está sempre envolvida e reflete um percurso na dança que é simultaneamente artístico e acadêmico, mas, antes disto, é um contexto para o qual eu convirjo minhas inquietações, inspirações e sabores sobre ser um corpo. Escrever ou dançar é sempre sobre esta experiência. E como eu não dou conta dela sozinho, ou porque ela fica especialmente interessante quando estimulada pela experiência dos outros, eu celebro com a alegria a oportunidade de escrever sobre o que encontro na dança de Contato Improvisação ao mesmo tempo em que me parece muito natural e necessário buscar relações com a experiência e explicações de outros seja na dança, na ciência, na literatura... no corpo.

 

          Por isto este livro é uma invenção. Talvez não seja verdadeiro. Aliás, meu corpo vivo parece-me tão cheio de contradições e incoerências. Mas é concreto. Preocupo-me com que tenha suficiente “visibilidade”, isto é, que construa e ofereça coerências onde eu e o leitor possamos nos encontrar e estimular a experiência um do outro, artística, humana e intelectualmente.

 

          Parece-me uma dança a que estou me dedicando e lapidando por algum tempo na minha paixão de explicar e “ver” o mundo como dançarino. Agora o leitor chega.

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